Novos ônus da polêmica CTR Santa Rosa

A tecnologia de ponta empregada na implantação da Central de Tratamento de Resíduos Santa Rosa, em Seropédica, que seduziu autoridades do Governo do Estado e do município, é mais uma vez colocada em xeque por conta de denúncias de moradores do bairro Chaperó, segundo os quais proliferam casos de doenças respiratórias e enjoos, em decorrência do processamento de detritos descarregados na CTR Santa Rosa pela empresa Ciclus.

Moradores reivindicam soluções para problemas causados pelo odor do lixo FOTO: AGÊNCIA BRASIL
Moradores reivindicam soluções para problemas causados pelo odor do lixo FOTO: AGÊNCIA BRASIL

Ao tomar conhecimento da situação, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) disse que pretende visitar o local na próxima semana, junto com uma comitiva liderada pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Paulo Melo, para verificar a veracidade das denúncias.
As crianças e os idosos são os que mais sofrem com o forte cheiro que emana das piscinas de chorume. Para o ajudante de caminhão Marco Antônio Patrocínio, a preocupação é com a infestação de moscas, que aumentou desde o início da implantação do aterro. “As moscas pousam no chorume e depois vêm infectar as crianças”, reclama ele. A situação também revolta Sônia Regina, que há 25 anos mora em Chaperó. “Depois que esse lixão veio, perdi o gosto de morar aqui. Era um bairro tranquilo, um paraíso. Não tenho mais vontade de ficar. Não dá para botar uma mesa no almoço de tanta mosca”, entristece-se a moradora.
O aposentado Guilherme Zanini é outro desiludido com o bairro. “Passei do paraíso para o inferno. Agora não sei o que fazer; se saio ou se fico. A gente deita com o mau cheiro e levanta com dor de cabeça. Dependendo do vento, não se consegue nem dormir”, sustenta Zanini, que da casa de dois andares tinha antes a vista de verdes campos, agora substituída pelo visual dos reservatórios de chorume.
Até para vender os imóveis ficou difícil, pois o bairro todo sofreu desvalorização, segundo o militar reformado José Reinaldo Evangelista. “Os imóveis estão desvalorizados. A gente bota placa e ninguém quer comprar. Em compensação, nosso IPTU é altíssimo, porque consideram como área industrial. Paguei mais de R$ 1 mil para a prefeitura de Itaguaí este ano”, reclama.
De acordo com o líder comunitário Everaldo Eufrásio Francisco, mais de 10 mil pessoas estão sendo atingidas pela poluição. “A implantação desse lixão vem causando prejuízo para a nossa comunidade. Já é caso de saúde pública. Minha esposa é um exemplo, pois está sofrendo de bronquite asmática e constantemente vem apresentando dificuldades de respiração. O cheiro é insuportável e mesmo durante a madrugada impede o sono. Fora o barulho dos caminhões, durante toda a noite”, irrita-se Everaldo.
Segundo o líder comunitário, o problema se agravou com as fortes chuvas que atingiram a região no início do ano. “Tivemos uma chuva forte que inundou parte dessa fazenda, onde está a CTR, e deve ter vazado esse chorume das piscinas para a rede pluvial. Nós queremos que esse lixão seja interditado. Sabemos que é uma luta grande, mas não é impossível”, acredita.

Pesquisador da UFRuralRJ diz que CTR é catástrofe anunciada
Os problemas denunciados pelos moradores de Chaperó fazem parte das preocupações do professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRuralRJ), Cícero Pimenteira, que é doutor em Planejamento Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A irritação é natural, de pessoas que estão entrando em contato constante com esse material poluente. O local foi mal escolhido e vai afetar uma grande parte da população do estado. A área é de recarga do Aquífero Piranema, que está dentro da Bacia do Rio Guandu, abastecedor da região metropolitana do Rio”, denuncia ele.

Segundo Pimenteira, os efeitos sobre a saúde pública serão sentidos em médio e longo prazos, com danos muitas vezes irreparáveis. “É uma bomba relógio. O chorume tem por característica carregar metais pesados, que são absorvidos pelo organismo humano e não são eliminados, em um processo chamado de bioacumulação. Isso pode causar danos a longo prazo à saúde humana, não só à parte reprodutiva, mas também ao sistema nervoso central”, acentua ao pesquisador.

Para o professor, houve demora na execução do projeto, que deveria prever o tratamento de chorume desde o início das operações. “A estação de tratamento de chorume deveria ter sido construída e entregue no momento em que o aterro foi implementado, mas até hoje ela não existe. Uma das formas de mitigar o problema seria ter o tratamento adequado para o chorume”, ensina ele.

Cícero Pimenteira alerta que a poluição tende a se espalhar por toda a região e não apenas no bairro de Chaperó. “É preciso levar em consideração o material que vaza desses caminhões, ao passarem em frente dessas casas, caindo sobre o asfalto e o barro, e também a evaporação das piscinas de chorume, que têm outros metais e inclusive amônia. A empresa deveria ter feito um cinturão verde, que é um dos condicionantes para o funcionamento do aterro. Essas árvores impediriam o trânsito desse material particulado, para reduzir o impacto e o mau cheiro”, diz.

Para o acadêmico, a escolha do local foi a pior possível e pode afetar boa parte da população do estado, causando poluição nos reservatórios de água para consumo. “É uma catástrofe anunciada. Existe um risco ambiental muito grande naquela região de contaminação do lençol freático e de saúde pública. Foi um grande erro de planejamento estratégico”, condena Pimenteira.

Empresa Ciclus divulga nota
Através de sua assessoria de imprensa, a Ciclus divulgou nota afirmando que a CTR Santa Rosa é a mais moderna instalação do gênero na América Latina e foi desenvolvida com a mais alta tecnologia em um processo de implantação gradativa, que segue um cronograma. Segundo a empresa, embora este cronograma previsse o uso de lagoas de acúmulo no final de 2013, a CTR antecipou essa instalação e já conta com esse recurso para casos de contingência. A Ciclus alega que estudou alternativas e já iniciou o processo de instalação de um sistema de cobertura da lagoa para controlar ainda mais o odor provocado pelas fortes chuvas que vêm assolando a região nesse início de ano.

 

Fonte: Jornal Atual

One comment

  1. As fortes chuvas no local são comprovam que o aquífero é abastecido por alí. Cobertura não vai adiantar.
    Quem fez esse EIA/RIMA? Quem aprovou esse EIA/RIMA para um solo hidrimórfico (literalmente formado por água=inundações)
    Não lí o RIMA- relatório de impacto ambiental e o EIA -estudo de Impacto Ambiental, mas já posso concluir que é uma sucessão de erros, pois estão transparecendo.
    A impermeabilização é horizontal, em caso de transborde por inundações, se espalha o chorume no solo permitindo a contaminaçao do subsolo pelos curso e drenagens. Concluí-se que o aquífero já está sendo abastecido de chorume.

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