Milicia cobra taxa para liberar obra na Estrada Rio-São Paulo

Começou com a cobrança de taxas de segurança e a exploração de serviços como transporte alternativo, venda de gás e sinal clandestino de TV a cabo. Já passou por negócios como areais, terraplanagem e a construção de prédios. Mas em Seropédica, a milícia avançou mais alguns passos para ter o município sob suas ordens. Denúncias de moradores apontam que as obras de duplicação de um viaduto na antiga Rio-São Paulo (BR-465), perto do Centro da cidade, foram paralisadas, em meados de Dezembro, porque a quadrilha que age na região exigiu R$ 35 mil da empreiteira contratada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

A extorsão é apenas uma das faces da ação do bando na cidade. Os criminosos chegam até mesmo a cobrar taxas de quem resolve fazer uma festa dentro de casa. As interferências no dia a dia da população são tantas que o Disque-Denúncia recebeu, somente este ano, 51 relatos sobre a atuação desses bandos na região.

RISCO PARA CICLISTAS

O “pedágio” instituído pelo grupo de milícia pode inviabilizar ou no mínimo atrasar obras em outras quatro pontes na mesma estrada, no trecho entre Seropédica, Nova Iguaçu e o limite com a cidade do Rio, perto de Campo Grande. Juntas, as intervenções nas cinco pontes — uma delas passa sobre o Rio Guandu, que abastece 9 milhões de pessoas na Região Metropolitana — estão orçadas em R$ 12,189 milhões. Elas começaram há cerca de 40 dias perto do acesso principal à Universidade Federal Rural, no quilômetro 7 da rodovia. Nesse ponto, além de melhorar o trânsito, a duplicação traria mais segurança a cerca de 1.500 pessoas, grande parte estudantes, que, diariamente, precisam atravessar a passagem sobre uma linha férrea a pé ou de bicicleta. O ponto é o único em que uma ciclovia, construída no início dos anos 2000 pela universidade, entre seu campus e o Centro da cidade, é interrompida. Pedestres e ciclistas acabam sendo obrigados a se arriscar no asfalto por 38 metros, espremidos ao lado de um tráfego pesado de carros, caminhões e ônibus.

Naa últimas semanas de Dezembro, sumiram os operários, as máquinas e qualquer sinal de que as intervenções pudessem ter sido apenas temporariamente suspensas.

— Para não colocar seus empregados em risco, os relatos são de que a empreiteira resolveu parar as obras. Como uma milícia tem o poder de paralisar uma obra pública com recursos da União? Eles avançaram a um nível de atrevimento que demonstra a falência do estado na região, na periferia da Baixada Fluminense, com baixo índice de desenvolvimento humano e um pequeno efetivo da Polícia Militar — afirma um morador de Seropédica, lembrando que, até meados de maio de 2015, existia ali uma segunda ponte, metálica, por onde seguia a ciclovia, mas que desabou.

Quando começaram, as obras, a cargo da empresa Preserva Engenharia, de Cotia, São Paulo, foram motivo de comemoração. Um otimismo que cedeu à medida que paramilitares foram avançando em territórios da região. A previsão era que a primeira ponte ficasse pronta em abril de 2018. Mas, segundo o próprio Dnit, pelo andamento dos trabalhos, a inauguração poderia ser antecipada.

A Superintendência do Dnit no Rio confirmou já ter recebido informações de que o motivo da paralisação das obras poderia ser a intimidação da milícia. Mas, até agora, não recebeu um comunicado oficial da empresa justificando a interrupção dos trabalhos. O departamento, no entanto, ressaltou o histórico de obras entregues pela empreiteira. E disse que apurará por que os serviços foram abandonados. Se a suspensão tiver relação comprovada com a intervenção dos grupos criminosos, o órgão afirma que acionará a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal.

Mas, para moradores e comerciantes de Seropédica, o poder da milícia não surpreende. Segundo eles, que preferem não se identificar por medo de sofrer represálias, os criminosos interferem em tudo, de festas familiares a negócios, sendo mais agressivos em relação ao comércio. Além de exigir dinheiro de proprietários de lojas, os grupos passaram a cobrar propina até de ambulantes, e todo mundo sabe que, hoje, até para instalar uma barraquinha de comida na rua, é preciso pagar entre R$ 20 e R$ 120 por semana, valor que fica a critério dos bandidos. Nem dentro de casa, o morador do município está livre de sofrer extorsões. Quem quer fazer uma festa, por exemplo, é instado a pagar uma taxa aos milicianos, que, dependendo da quantidade de convidados, pode chegar a mil reais.

— Eles chegam dizendo que são da milícia e que, se não pagarmos, a festa pára — conta um morador, com medo.

Os achaques já aconteceram, inclusive, em eventos de estudantes da Rural em espaços fora da universidade. Os alunos preferiram não pagar e interromperam a comemoração. Agora, para tentar driblar o problema, têm planejado festas dentro do campus, esbarrando em outra questão: a reitoria não permite o consumo de bebidas alcoólicas no local.

As queixas recebidas pelo Disque-Denúncia mostram que a maior parte dos milicianos age no Centro e no bairro Campo Lindo, onde fica a 48ª DP (Seropédica). Já em Itaguaí, as denúncias indicam a presença dos criminosos sobretudo nos bairros Chaperó, Jardim América, Brisamar, Coroa Grande, Itimirim e Vila Geni. A atuação dos milicianos, independentemente da região, é sempre a mesma: cobrança de taxas de segurança dos moradores e comerciantes; oferta de serviços de TV a cabo e internet clandestina; e expulsão de moradores que não seguem as regras impostas pelo bando. “Há também a informação de que, em Coroa Grande, milicianos vendem lotes e terrenos com documentação irregulares ou falsificadas”, afirma o Disque-Denúncia.

A Polícia Civil diz que há inquéritos em andamento na 48ª DP (Seropédica), em conjunto com a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), para identificar e prender envolvidos em milícia na região. A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) também apura o avanço dos paramilitares em Seropédica.

As investigações apontam que, em 2015, a maior milícia do Rio, fincada na Zona Oeste do Rio há cerca de 20 anos, começou uma expansão de suas atividades criminosas tanto para Seropédica e Itaguaí, quanto para Nova Iguaçu, em bairros como o Cabuçu. A invasão de bairros de Seropédica e Itaguaí ocorreu entre janeiro e setembro daquele ano e, na época, por causa da disputa de território com o tráfico, deixou um rastro de mortes. Mas os homicídios continuaram e, na eleições do ano passado, houve casos associados à milícia. Um deles foi o do policial militar Júlio César Fraga Reis, candidato a vereador de Seropédica pelo PCdoB. Ele foi morto em 20 de agosto de 2016, no bairro Boa Esperança, no próprio município, quando saía de uma festa.

CONTABILIDADE APREENDIDA

No fim de 2015, PMs do 24º BPM (Queimados) prenderam dois homens, em Seropédica, com parte da contabilidade da milícia. Nela, havia anotações sobre taxas semanais cobradas de comerciantes, que expunham extorsões de donos de farmácia a vendedores de churrasquinho. Recentemente, saiu no  jornal Extra, a ascensão de Wellington da Silva Braga, o Ecko, ao comando da maior milícia do Rio — cargo que assumiu após a morte de seu irmão, Carlos Alexandre Braga, o Carlinhos Três Pontes — provocou uma guerra de facções. Entre os insatisfeitos com o novo chefe, estariam os milicianos de Seropédica.

Fonte: Jornal O Globo

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